Projeto Leia + Contos | O lado obscuro de Roald Dahl

Este post faz parte do Projeto Leia + Contos. Aqui, farei uma breve discussão sobre o conto “A Senhoria”, de Roald Dahl, que pode ser lido em sua versão original clicando aqui, ou numa tradução para o português clicando aqui. Depois, não se esqueça de voltar para trocarmos nossas opiniões 😉

Ilustração feita por Wesley Ryan Clapp

Embora Roald Dahl seja atualmente mais conhecido como autor de livros infantis, o escritor britânico foi também responsável pela criação de diversos contos, dentre os quais destaca-se “A Senhoria”. Publicado pela primeira vez em 1959, o texto faria com que, no ano seguinte, Dahl fosse agraciado no Edgar Awards, importante premiação dedicada ao gênero mistério.

A história, ambientada em Bath, acompanha o personagem Billy Weaver enquanto procura um local para passar a noite. Após caminhar pelas ruas da cidade, acaba por hospedar-se numa pensão, cuja senhoria é uma idosa simpática (até demais).

“Mas estou sempre preparada. Dia e noite, está tudo pronto para receber um jovem cavalheiro aceitável. Não pode imaginar quão grande é o meu prazer quando, volta e meia, abro a porta e deparo com alguém que é exatamente certo.”

Desde o início, somos tomados pela sensação de que algo terrível ocorrerá em seguida. Sem dúvidas, é incrível como o autor consegue inserir tensão no enredo e, principalmente, por fazê-lo a partir do não dito, dos subentendidos. Em outras palavras, o conto não se preocupa em dar respostas prontas ao leitor – cabendo a este, assim, imaginar os eventos aterrorizantes já ocorridos ou ainda por ocorrer naquela casa.

Como exemplo, pode-se citar o momento em que, ao deparar-se com os nomes dos hóspedes anteriores da pensão, o protagonista recorda tê-los escutado em algum lugar. Teria ele conhecido esses homens ao longo da vida? Ou simplesmente havia lido seus sobrenomes numa manchete de jornal, talvez a anunciar uma tragédia numa pensão de Bath? A essas e outras perguntas, cabe a nós tentar responder.

Ao mesmo tempo, há outro elemento que incorpora terror à trama: o modo como Billy Weaver sente-se atraído à pensão. Segundo o próprio personagem nos narra, ao defrontar-se com o anúncio de “cama e café da manhã”, ele é quase impulsionado a entrar no local. Em outras palavras, a construção parece dotada de força própria.

“Já estava começando a se virar quando seus olhos foram atraídos, de um modo bem esquisito, pelo cartaz na janela. CAMA E CAFÉ DA MANHÃ, dizia o cartaz. […] Cada palavra parecia um olho negro e imenso a fitá-lo através do vidro, a prendê-lo, atrai-lo, forçando-o a permanecer onde estava, a não se afastar daquela casa.”

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Imagens da adaptação do conto por Alfred Hitchcock (1961)

Assim, Roald Dahl não subestima o leitor, não se demora em explicações, e é isso que nos faz mais apreensivos no decorrer da história. Enfim, caso não o conhecesse pelos famosos “Matilda” e “A Fantástica Fábrica de Chocolate”, seria difícil supor que o conto fora escritor por um autor de livros infantis. De qualquer maneira, algo não se pode negar: depois de ler essa história, nunca mais veremos uma pensão da mesma maneira…

 

Leituras do mês | Outubro 2017

Outubro foi o mês de Halloween e, por isso, eu pretendia fazer leituras temáticas nesse período, de gêneros como terror, suspense e mistério. Infelizmente, não pude cumprir essa ideia. De qualquer modo, conheci histórias excelentes!


“Hibisco Roxo”, de Chimamanda Adichie

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Em “Hibisco Roxo”, a jovem Kambili tem de lidar com a religiosidade extremista do pai após ela passar uma temporada com a tia. Nesse ínterim, ela começa a perceber os defeitos do homem que costumava ver como um “herói”. Mais uma vez, encantei-me com a escrita de Chimamanda! Além de tratar de temas atuais, esse é, sobretudo, um livro que “toca na ferida”. Recomendo muitíssimo a qualquer pessoa!

“Morte no Nilo”, de Agatha Christie

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Já no clima do Halloween, li “Morte no Nilo”, uma das obras mais conhecidas de Agatha Christie. Nela, acompanhamos o detetive Hercule Poirot na resolução do assassinato de Linnet Ridgeway, ocorrido num cruzeiro repleto de possíveis culpados, cada um com seus motivos. Dentre os livros da autora, esse foi um dos que mais mantiveram um clima de suspense no decorrer das páginas, pois as personagens corriam perigo a todo instante. De fato, é uma daquelas histórias que dá “medinho”… Recomendo a obra, especialmente durante o Halloween 🙂

“A Outra Volta do Parafuso”, de Henry James

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Ainda nesse clima de Halloween, li “A Outra Volta do Parafuso”, de Henry James. Sabe aqueles causos de terror? Eles foram o primeiro pensamento que tive ao começar a leitura. Essa tem início com um grupo de amigos ao redor da lareira, à noite, cada um contando histórias assustadoras de que tem conhecimento. Então um deles propõe relatar o ocorrido a uma colega. A partir daí, conhecemos os fatos por meio das palavras da própria mulher, deixadas num manuscrito. Não falarei muito mais acerca do enredo, apenas que inclui a temática da loucura e duas crianças um tanto, digamos, “macabras”… Somente lendo para descobrir 😉

“Os Pastores da Noite”, de Jorge Amado

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Depois, decidi pegar emprestado na biblioteca “Os Pastores da Noite”, um compilado de três narrativas, todas compostas pelo mesmo núcleo de personagens. Afora algumas ressalvas, gostei bastante da obra. Como sempre, Jorge Amado fez diversas críticas sociais nas histórias, as duas primeiras sendo mais voltadas para o cômico, enquanto a última propõe-se a mostrar a dura realidade daqueles indivíduos. Aliás, uma vantagem desse formato foi a maneira como, inconscientemente, envolvi-me com os protagonistas. Recomendo a obra, mas cuidado: o desfecho pode te deixar desolado!

“A Literatura em Perigo”, de Tzvetan Todorov

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Em seguida, li esta obra curta, porém riquíssima: “A Literatura em Perigo”. De maneira geral, o autor nos apresenta um breve panorama do ensino de Literatura nas escolas, e como este está afetando (a até distanciando) a leitura das pessoas. Acredito que todos os leitores deveriam conhecer ao menos uma vez esse texto – afinal, é um assunto bastante atual e, também, inesgotável.

“A Mão e a Luva”, de Machado de Assis

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Aos poucos, venho conhecendo mais a fase romântica de Machado de Assis. Publicado inicialmente como folhetim, “A Mão e a Luva” acompanha a disputa de três pretendentes pelo amor de Aguilar. Na época, o romance não foi muito bem recebido pela crítica, sobretudo pela sua simplicidade, diferindo do modelo considerado “normal” em se tratando de folhetins. Eu, ao contrário, gostei bastante da obra! Desconfio que, independentemente do enredo, Machado de Assis conseguia tornar tudo interessante – era um verdadeiro contador de história!

“Helena”, de Machado de Assis

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Por fim, li o romance “Helena”, publicado posteriormente a “A Mão e a Luva”. O enredo tem início com um pedido inesperado presente no testamento do conselheiro Vale: sua filha ilegítima Helena, da qual quase ninguém tinha conhecimento, deveria ir morar com a família do falecido. E isso, é claro, não irá agradar a todos… Diferentemente do livro anterior, essa história apresenta um enredo bem mais “folhetinesco”, com dramaticidade, um passado misterioso, segredos… Confesso que, por isso, não me agradou tanto quanto outros livros do autor – mas é verdade que, frente a obras de tanta qualidade, torna-se difícil “competir”… Ainda assim a recomendo, porém é importante ter em mente essas informações antes de iniciar a leitura.


Então, já leram alguma dessas obras? Se sim, quais foram suas opiniões? Adorarei saber!

 

Leituras do mês | Setembro 2017

O mês de setembro passou voando, não é mesmo? Daqui a pouco,  quando nos dermos conta, estaremos no fim do ano… De qualquer modo, foi um período de ótimas leituras!

“Harry Potter”, de J.K.Rowling

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No início do mês, reli os últimos dois livros da série “Harry Potter” e amei cada momento que passei junto a esse universo! Contei um pouco mais sobre essa experiência incrível no post Revivendo a magia de “Harry Potter”.

“Um Corpo na Biblioteca”, de Agatha Christie

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Nesse livro, protagonizado por Miss Marple, o cadáver de uma jovem é encontrado na biblioteca do casal Bantry. Assim, a detetive amadora, fazendo uso de seu conhecimento acerca da natureza humana, irá solucionar o mistério. Devo admitir que não está entre os meus livros favoritos da autora, mas isso não significa que não tenha gostado dele. Muito pelo contrário: esperei ansiosamente pela resolução do caso. Além disso, é impossível não se sentir cativado por Miss Marple!

“Insônia”, de Graciliano Ramos

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Sabe quando pegamos um livro sem saber do que trata a história? Esse foi o caso com “Insônia”, de Graciliano Ramos. Encontrei esse exemplar na biblioteca da escola e, ao iniciar a leitura, descobri ser uma coletânea de contos. No geral, a obra não se tornou uma de minhas favoritas, mas foi muito interessante conhecer esse outro lado do autor, pois só havia lido sua história mais famosa – “Vidas Secas”. Além disso, gosto de sair da minha zona de conforto de vez em quando e simplesmente conhecer um livro de que nunca ouvira falar. Naturalmente, alguns contos me chamaram mais atenção, como “Luciana”, “Minsk” e “A Prisão de J. Carmo Gomes”. Enfim, vale a pena conhecer, especialmente por abordar repressão, mas é importante não ter altas expectativas quanto à obra.

“A Maldição do Espelho”, de Agatha Christie

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Para não perder o costume, li outra obra da Agatha Christie. Em “A Maldição do Espelho”, publicado em 1962, Heather Badcock é envenenada durante um evento nas proximidades de St. Mary Mead. No entanto, ao longo das investigações da morte, percebe-se que a mulher não era o tipo de pessoa a ter inimigos. Tudo leva a crer, então, que o verdadeiro alvo havia sido Marina Gregg – famosa atriz cuja casa fora a cena do crime. Confesso que me surpreendi com essa história, pois, por nunca ter ouvido falar do livro, não criei muitas expectativas quanto a ele. Como sempre, o mistério foi muito bem desenvolvido no decorrer das páginas, e a presença da personagem Miss Marple é mais um motivo para conferir a obra!

“Americanah”, de Chimamanda Ngozi Adichie

IMG_20170924_090948643_HDR“Americanah” foi um livro que me conquistou aos poucos. A história, ambientada em três diferentes países, retrata a experiência da nigeriana Ifemelu como imigrante nos Estados Unidos, bem como a trajetória de sua relação com Obinze. Se tivesse de descrever a obra numa única palavra, seria “sincera”: não só aborda temas atuais, como racismo e desigualdade de gênero, como também traz momentos tristes, engraçados, angustiantes… Após concluir a leitura com um sorriso no rosto, fiquei mais feliz ainda ao descobrir que terá uma adaptação cinematográfica estrelada por ninguém menos que Lupita! Resta apenas esta pergunta: como não amar? ❤

“Viagem ao Centro da Terra”, de Júlio Verne

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Li “Viagem ao Centro da Terra” pela primeira vez aos onze anos e, confesso, a história não me cativara nessa época. Contudo, após algumas boas experiências com releituras, decidi dar uma nova chance ao livro. A história tem início quando o professor Lindenbrook encontra uma mensagem decodificada em meio a um livro antigo. Após decifrá-la, o homem descobre que seria supostamente escrita por Arne Saknussemm, cientista que afirma ter alcançado o centro da Terra mais de três séculos antes. Assim, determinado a repetir a jornada, Lindenbrook une-se a seu sobrinho rumo a essa viagem, no mínimo, arriscada.

Posso dizer que adorei acompanhar esses personagens, principalmente porque o autor permeia a história com dados científicos muitíssimo interessantes, em minha opinião. Além disso, é impossível não notar como a obra de Júlio Verne continua influenciando a ficção de aventura. Com certeza, pretendo conhecer outros livros do escritor!

“Essencial”, de Franz Kafka

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Por fim, mas não menos importante, tive o prazer de conhecer algumas obras de Kafka, presentes nessa edição da editora Pearson. Dentre os contos e novelas reunidos, destacaram-se para mim “O Veredicto”, “Na Colônia Penal” e, como não poderia ser diferente, “A Metamorfose”. Sem dúvidas, o que mais me encantou nas histórias do autor é o modo como, apesar de vários estudiosos ao redor do mundo debruçarem-se sobre esses textos, não apresentarem uma significação definitiva, absoluta. Enfim, não é à toa que o nome de Kafka figura entre os mais importantes escritores do século XX.


Então, já leram algum desses livros? Contem-me nos comentários, pois adorarei trocar opiniões!

Beijos e até a próxima!

Projeto Leia + Contos | “Na Colônia Penal” e (in)justiça

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Este post faz parte do Projeto Leia + Contos. Aqui, farei uma breve discussão sobre o conto “Na Colônia Penal”, de Franz Kafka e, por isso, é importante lê-lo antes de continuar o texto. Depois, não se esqueça de voltar para trocarmos nossas opiniões 😉

Durante uma leitura pública de “Na Colônia Penal”, realizada pelo próprio autor na Galeria Goltz, em Munique,  duas senhoras desmaiaram ante o horror da narrativa. Tendo isso em mente, já é possível notar o quão perturbador é o conto.

Escrita em 1914, a história trata da visita do explorador a uma colônia penal, onde a justiça é, no mínimo, duvidosa. Nesse lugar, os condenados não têm direito de defender-se ou sequer de tomar conhecimento das acusações. Contudo, o aspecto mais insano disso tudo é, sem dúvida, a máquina peculiar utilizada nas penas.

Tomando como base o princípio de “sentir na própria pele”, o aparelho tortura o indivíduo ao longo de doze horas – durante as quais ele tem marcada nas costas, a partir de um sistema complexo de agulhas, uma sentença referente a seu respectivo crime. Somente então, o prisioneiro será levado à morte.

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Obra do artista Bruno Caruso (Itália, 1927). 

“Cada agulha comprida tem ao seu lado uma curta. A comprida é a que escreve, a curta esguicha água para lavar o sangue e manter a escrita sempre clara.”

Por si só, essa máquina já seria capaz de chocar qualquer leitor; porém, a descrição crua, impessoal de Kafka torna a experiência ainda mais perturbadora.  Soma-se a isso a crença cega do oficial na utilidade do aparelho, a tal ponto que ele mesmo, em certo momento, submete-se ao processo. Entretanto, ocorre uma falha nos mecanismos, e o homem, que tinha uma incrível admiração pelas longas horas de tortura, é morto em poucos instantes.

“Nesse ínterim as partes feridas pela escrita entram em contato com o algodão, o qual (…) estanca instantaneamente o sangramento e prepara o corpo para novo aprofundamento da escrita.”

 “Franz Kafka: The Peculiar Apparatus from the Story ‘In the Penal Colony'”. Obra do artista Martin Senn.

Assim, essa história aborda julgamento e condenação, temas comuns na obra de Kafka – que, aliás, era formado em Direito. Além disso, há uma clara crítica a essa visão turvada sobre a lei e, também, ao apego aos costumes passados.

Com um final enigmático, “Na Colônia Penal” constitui até hoje um dos contos mais assustadores já escritos, sobretudo porque será sempre atual. Afinal de contas, a crueldade nele retratada não se distancia daquela que encontramos nos livros de história e nos noticiários. E, por fim, bem sabemos que o conceito de justiça é ainda controverso, e que a tal estátua – com a balança nas mãos e os olhos vendados – não corresponde exatamente à realidade.

Revivendo a magia de “Harry Potter”

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OBS.: Este texto contém spoilers de “Harry Potter”. 

Li “Harry Potter” pela primeira vez aos nove anos, sem ter assistido aos filmes ou mesmo conhecer a história. Desde as primeira páginas, encantei-me com esse universo – era capaz de absorver uma enorme quantidade de informações relativas a ele, como feitiços, costumes, objetos…

Contudo, aos quinze anos, muito do meu carinho em relação a esse mundo já se esvaíra. Se alguém me perguntasse, eu diria sim que “Harry Potter” era um dos meus livros favoritos da vida; mas, de certa forma, eram palavras vazias. Foi então que decidi reler essa série, e tudo o que senti ao conhecer a história ainda criança veio à tona.Leia mais »

Dois casos de Miss Marple

IMG_20170917_070752834_HDRHercule Poirot costumava ser o meu detetive favorito da literatura – não é à toa que ele tornou-se um dos personagens mais famosos da Agatha. Contudo, após conhecer melhor Miss Marple, confesso que ela também alcançou um lugar de destaque no meu coração. A idosa, moradora de uma cidadezinha chamada St. Mary Mead, recusa-se a viver uma velhice considerada “tranquila” e sempre acaba envolvendo-se na investigação de assassinatos, mesmo que subestimada pelos detetives profissionais.

E como uma senhora, aparentemente tão indefesa, consegue solucionar crimes tão complicados? Segundo a própria Miss Marple, a partir da observação da natureza humana, que nunca mudará, ainda que em situações adversas. Assim, a velhinha costuma relacionar histórias do dia a dia aos crimes – desde a vida do padeiro que abandonou a esposa, até uma empregada incrivelmente fiel aos patrões.

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Em “Um Corpo na Biblioteca”, a detetive amadora busca desvendar o aparecimento de um cadáver na biblioteca de seus amigos, o Casal Bantry. A princípio, é claro, todos desconsideram a pobre senhora, com exceção da amiga Dolly Bantry, que já conhece o gênio de Miss Marple. Porém, no decorrer das páginas, torna-se impossível negar o talento da velhinha.

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Já em “A Maldição do Espelho”, um envenenamento ocorre durante um evento na casa de Marina Gregg, uma celebridade que mudou-se recentemente para as proximidades de St. Mary Mead. Logo descobre-se que a vítima, Heather Badcock, não era o tipo de pessoa que possuía inimigos, o que leva todos os envolvidos a se perguntar: será que o verdadeiro alvo havia sido a famosa atriz?

Como sempre, Agatha Christie nos apresenta finais surpreendentes: não só pelo fato de que os assassinos são quem menos esperamos, mas também porque as diversas pistas no decorrer da história nos passam despercebidas. Além disso, é impossível não se apaixonar por Miss Marple! Talvez a simpatia que sentimos pela personagem se deva ao tema que ela traz à narrativa: a velhice. Afinal, daqui a alguns anos, todos nós alcançaremos essa fase da vida, e sejamos francos: quem não gostaria de vivê-la ativamente, em lugar de tornar-se a figura incapaz que muitas vezes é atribuída à terceira idade?

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Miss Marple, interpretada por Joan Hickson

Então, vocês já leram algum desses livros? E o que acharam? Contem-me nos comentários, pois adorarei trocar opiniões!

 

 

 

Você também irá flutuar…

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Para quem não sabe, sou apaixonada pelo livro “It – A Coisa”, do Stephen King. Por isso, estava há muito tempo ansiosa pela mais nova adaptação cinematográfica. Assim que o filme foi lançado, busquei imediatamente o que as pessoas vinham falando sobre ele, e confesso que, se minhas expectativas já estavam altas, elas aumentaram ainda mais com as boas críticas que li. Felizmente, a obra não me decepcionou.

“It – A Coisa” conta a história de sete crianças (Bill, Richie, Mike, Ben, Beverly, Eddie e Stan), todas moradoras da cidade de Derry, onde estão ocorrendo diversos desaparecimentos. Somente elas sabem o responsável por essas tragédias: uma criatura horrenda que toma a forma dos medos das pessoas, embora comumente apareça sob a figura de Pennywise, o Palhaço Dançarino.

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Apresento-lhes Pennywise. Sorrisinho simpático, não?

Como fã da história, esperava, é claro, uma grande interpretação de um dos vilões mais bizarros da literatura, e o ator Bill Skarsgård não deixou nada a desejar nesse quesito – a ironia, as risadas, o jeito único de Pennywise, tudo estava perfeito! Contudo, não há dúvidas de quem mais brilhou no filme: as crianças. Os personagens foram desenvolvidos muito bem, cada um com seus próprios medos e personalidade. Simplesmente amei encontrar na telinha esses indivíduos que me cativaram tanto no livro!

Aliás, um dos pontos fortes da obra está no fato de funcionar tanto como adaptação cinematográfica, como também filme em si. Os personagens cativaram tanto o público que esse riu, gritou, torceu em diversas cenas. Afinal, “It – A Coisa” não é puramente uma história de terror, mas sobre amadurecer, enfrentar os medos e a importância da amizade nesse processo.

Então, se você não assistiu ao filme, assista. Se não leu o livro, leia. Assim como eu, você se verá fascinado por esse universo. Cada pedacinho de mim deseja que o Capítulo 2 seja tão bom quanto o primeiro, embora no fundo eu teria gostado de ver essas personagens sempre crianças. Mas essa é a vida real: todos crescem, e a magia da infância não dura para sempre. Com o Clube dos Perdedores, isso não será diferente.

Leituras do mês | Agosto 2017

Em 2017, tenho lido menos livros do que de costume. Afinal, com o início do Ensino Médio e a proximidade do ENEM (daqui a pouco vai ser minha vez!), é necessário focar ainda mais nos estudos, fazendo também alguns “sacrifícios” ao longo dessa jornada.

Porém, Agosto foi meu mês de férias: pude enfim “recarregar as baterias” e, claro, ler muitos livros que tinha vontade! Então, sem mais delongas, vamos às leituras do mês…

“Anna Kariênina”, de Liév Tolstói

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Finalmente pude conhecer essa grande obra da literatura! Escrita pelo russo Liév Tolstói, também aclamado pelo famoso “Guerra e Paz”, a história acompanha dois personagens: Anna Kariênina, uma mulher adúltera, e Liévin, homem do campo e questionador de tudo que o cerca. Posso apenas afirmar que é uma obra incrível! Não só abriga uma gama enorme e diversa de personagens, como também apresenta uma sociedade hipócrita, dura. A propósito, escrevi um texto expondo melhor minhas opiniões – você pode acessá-lo clicando aqui 😉

“O Curioso Caso de Benjamin Button”, de Scott Fitzgerald

Essa foi a primeira obra que li do autor. “O Curioso Caso de Benjamin Button”, que inspirou o filme de mesmo nome, trata de um indivíduo que nasce com a aparência de um senhor de setenta anos, rejuvenescendo com o passar do tempo. Apesar de eu nunca ter assistido à adaptação cinematográfica, já conhecia a sinopse da história, e confesso que me surpreendi ao encontrar um tom cômico na narrativa. Além disso, a edição da LPM Pocket apresenta ainda um outro conto, intitulado “Bernice corta o cabelo”, sendo igualmente engraçado ao anterior (ou até mais). Para quem deseja uma leitura rápida e divertida, recomendo muitíssimo esse livro!

“Morte na rua Hickory”, de Agatha Christie

Agatha Christie é uma das minhas escritoras favoritas e, por isso, não poderia deixar de ler uma de suas obras nas férias. Nesse livro, Hercule Poirot espanta-se ao notar que a Srta. Lemon, sua geralmente impecável secretária, cometeu um simples erro de grafia na redação de uma carta. Indagada a respeito disso, a senhora confessa estar preocupada com a irmã, que vem relatando o sumiço de diferentes objetos no local de trabalho. Assim, o detetive dispõe-se a auxiliar a mulher, e o caso, que parecia uma simples série de roubos a princípio, toma novas proporções quando um cadáver é encontrado.

“Morte na rua Hickory”, mesmo não sendo uma de suas melhores criações frente às obras mais renomadas da autora, é uma leitura que me agradou bastante. Aliás, o que mais gostei na história foi o modo como, no decorrer das páginas, o tom cômico vai dando espaço a uma crescente tensão, atingindo o clímax na  resolução do mistério.

“Harry Potter”, de J.K.Rowling

“Harry Potter” é um dos responsáveis pela minha paixão por livros e, portanto, sinto um carinho enorme pela série. Em 2017, decidi realizar a releitura dessa história, desta vez na língua inglesa. Durante as férias, li o terceiro e quarto volumes da saga, e amei cada um deles! Sinto-me bastante feliz por revisitar esse universo tão adorado!

“Ressurreição”, de Machado de Assis

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Outro escritor que mora no meu coração! Nessa obra, que pertence à fase romântica do autor, é narrada a história de Félix, um homem um tanto cético em relação ao amor – isto é, até conhecer uma moça que mexerá com seu coração. Como não poderia ser diferente, Machado de Assis permeia a narrativa com pitadas de realismo, tratando de temas como ciúmes e pondo em dúvida a existência de “finais felizes”.

“Papéis Avulsos”, de Machado de Assis

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Por fim, já nos últimos dias de férias, decidi ler um dos livros de contos do autor. Em “Papéis Avulsos”, Machado de Assis expõe diversos temas inerentes à sociedade, como corrupção, hipocrisia, loucura, sempre com a ironia e as críticas ácidas que lhe eram tão caraterísticas. Recomendo muitíssimo a obra para quem deseja “iniciar-se” no autor! Aliás, ela contém alguns de seus contos mais famosos, entre eles “O Alienista”, “O Espelho” e “A Sereníssima República” (estou pensando seriamente em trazer alguns deles para o projeto Leia + Contos, pois são alguns dos meus preferidos do gênero!).


Então, quais desses livros vocês já leram? Contem aqui nos comentários, adorarei saber!

Beijos e até a próxima!

Projeto Leia + Contos | “Uma Galinha” e a situação da mulher

Estive bastante empolgada com este projeto desde que o apresentei a vocês – afinal, sendo uma amante de contos, tenho diversas indicações para dar. Como não poderia ser diferente, decidi compartilhar hoje um dos meus textos preferidos do gênero: “Uma Galinha”, escrito pela maravilhosa Clarice Lispector!

Presente na coletânea “Laços de Família”, a história acompanha a vida de uma certa galinha, bem como os diversos “percalços” que ela encontrará. Caso você não tenha lido esse conto, recomendo que o faça antes de continuar, pois aqui darei minhas impressões sobre o enredo. Lembrando que é bem fácil de encontrá-lo na internet, além de curtinho e gostoso de ler. Depois, não se esqueça de voltar aqui para trocarmos nossas opiniões 😉

Minhas impressões:

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Quem já leu algo da autora, sabe que seus textos são repletos de significado e, como toda obra da literatura, permitem interpretações diversas. Cada leitor, de acordo com as próprias vivências, extrai dali uma “lição”.

Desde as primeiras palavras do conto, fiquei comovida com a história da galinha. As descrições, tão simples e singelas, causaram-me identificação, porque vi, naquela criatura solitária, uma representação da mulher.

“Estúpida, tímida e livre. Não vitoriosa como seria um galo em fuga. Que é que havia nas suas vísceras que fazia dela um ser? A galinha é um ser.”

Ignorada pelos outros, oprimida, sem direitos. Aquela é a situação da galinha em fuga quando, por fim, põe um ovo. E, após esse único acontecimento, tudo muda. A menina, então, convence os pais a manter viva a ave.

Seria isso uma indicação de que, para a sociedade, o papel da mulher resume-se à reprodução e à manutenção da espécie?  Daí entram as vivências de cada leitor, pois o que senti ao ler essas palavras são fruto das minhas experiências.

Ao final, vemos que o destino da galinha muda abruptamente.

“Na fuga, no descanso, quando deu à luz ou bicando – era uma cabeça de galinha, a mesma que fora desenhada no começo dos séculos.

Até que um dia mataram-na, comeram-na e passaram-se anos.”

De modo semelhante, a situação da mulher não é ideal. Essa questão feminina, embora esteja aparentemente solucionada (assim como a galinha parecia ter mudado de vida), não deve de maneira alguma ser encarada como “assunto encerrado”. É verdade que houve muitas avanços ao longo da história, fruto da luta por parte das mulheres, porém vemos muitas situações nos dias de hoje que nos fazem  questionar: será que a humanidade está retrocedendo com o tempo? De qualquer forma, ainda há um longo caminho a ser percorrido até alcançarmos a igualdade de gêneros, e até que a sociedade tome consciência da importância desse tema.

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Então, gostaram do post? E o que acharam do conto? Adorarei saber!

Beijos e até a próxima!


“Anna Kariênina”, ou um retrato da sociedade

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“Todas as famílias felizes se parecem, cada família infeliz é infeliz a sua maneira.”

As primeiras palavras do romance “Anna Kariênina” já são suficientes para arrebatar qualquer leitor. Publicada primeiramente como folhetim entre os anos de 1875 e 1877, a obra constitui até hoje um marco das literaturas russa e mundial.

A despeito do que o título sugere, a história é composta por duas narrativas principais. A primeira acompanha a personagem Anna Kariênina, uma mulher casada que, insatisfeita com o próprio casamento, apaixona-se por outro rapaz – Vrónski. Mais do que um caso de adultério, o livro retrata como a sociedade russa reage a essa situação.

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Anna Kariênina e Vrónski. Cena do filme “Anna Karenina” (2012)

De outro lado, há Konstantin Liévin, um homem do campo, proprietário de terras e cujas reflexões permeiam muitas das páginas do romance. Apesar de seus questionamentos sobre política, economia, religião, casamento e mais uma infinidade de temas, a narrativa não se torna enfadonha. Muito pelo contrário: esses momentos de meditação não só enriquecem a obra, como também tornam claras as semelhanças entre Liévin e o autor do livro. Isso porque Tolstói transmitiu muito de si ao personagem,  o que me fez, em diversos pontos da leitura, ter a sensação prazerosa de estar conhecendo um pouco mais do escritor. Admito que encontrei-me inúmeras vezes sorrindo ao imaginar Konstantin como o próprio Tolstói.

Além disso, ele apresenta um amor sincero pela jovem Kitty. Tomado por esse sentimento, ele finalmente a pede em casamento, mas, ao receber uma recusa, Konstantin é tomado por tristeza e desilusão. O motivo dessa rejeição? A moça estava na expectativa de receber uma proposta de outro rapaz, ninguém menos que Vrónski – que, como já sabemos, não age conforme o desejo da garota.

Sem dúvidas, Liévin é uma das figuras mais cativantes da história! Ao longo do enredo, assistimos ao modo como ele lida com as próprias dúvidas e adversidades e, enquanto isso, torcemos a todo momento pela felicidade dele.

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Konstantin Liévin. Cena do filme “Anna Karenina”(2012)

Assim, a narrativa acompanha esses dois “núcleos”, bem como a enorme teia de personagens que os rodeia – cada um deles com os próprios medos, defeitos, ambições. Daí a grande faceta da obra: as figuras descritas pelo autor não são planas, mas complexas, compostas por “luz e sombra”.

E é dessa maneira que Tolstói consegue, com maestria, remeter-nos a todo momento à frase inicial da obra. Afinal, o que é “Anna Kariênina” senão um retrato da sociedade, a qual, prezando pelas aparências, esconde no âmago as infelicidades que permeiam a própria vida?

 


Então, gostaram da resenha?

Contem-me nos comentários se já leram ou desejam ler “Anna Kariênina”, e se gostaram ou não da história. Adorarei saber as impressões de vocês!

OBS.: O conto do primeiro post do projeto “Leia + Contos” já foi escolhido! Será “Uma Galinha”, de Clarice Lispector ❤