Projeto Leia + Contos | “Pausa”, de Moacyr Scliar

Este post faz parte do Projeto Leia + Contos. Aqui, farei uma breve discussão sobre o conto “Pausa”, de Moacyr Scliar, o qual pode ser lido clicando aqui. Depois, não se esqueça de voltar para trocarmos nossas opiniões! 😉

Alienated II, ilustração de Natalie Foss

No século XXI, nossa vida é cada vez mais ditada pelo tempo, pela rotina. Nossos dias são cronometrados, de modo que consigamos realizar o maior número de atividades num curto espaço de tempo. Diante disso, quem nunca desejou refugiar-se, ao menos por alguns segundos, dessa realidade desesperada?

É com esse intuito que Samuel, o protagonista do conto “Pausa”, hospeda-se em pleno domingo num hotel. Adotando um nome diferente, também na tentativa de distanciar-se de sua vida cotidiana, o personagem recolhe-se no quarto e, após uma rápida refeição, dorme. Porém, quando o despertador toca, ele é levado a retornar para o “mundo real”.

Nesse texto, é interessante notar que, embora Samuel busque obter uma pausa das atribulações da modernidade, é certo que ele não consegue de todo alcançar esse objetivo: além de permanecer angustiado durante o sono, em razão do sonho tido, ainda tem de lidar com o grande inimigo do homem contemporâneo – o relógio, o fio que o mantém preso à realidade.

É claro que o autor aborda o tema de maneira um tanto fantasiosa; afinal, reservar um dia da semana para nos hospedarmos num hotel não é um meio tão prático de esquecermos o dia a dia. Contudo, sempre podemos contar com a leitura para essa finalidade – que modo melhor de nos distanciarmos, mesmo por um breve instante, de nossos problemas?

Eis a fórmula para uma boa pausa da agitação diária: sente-se numa poltrona confortável, tenha um exemplar em mãos (ou leitor digital, mas sou daquelas leitoras antiquadas que ainda preferem o manuseio das obras e o cheirinho de livro novo…) e simplesmente mergulhe nas páginas. Não há erro!

Projeto Leia + Contos | Um presente de Natal inusitado

Este post faz parte do Projeto Leia + Contos. Aqui, farei uma breve discussão sobre o conto “O Presente de Natal”, de Richmal Crompton, que pode ser lido em sua versão original clicando aqui, ou numa tradução para o português clicando aqui. Depois, não se esqueça de voltar para trocarmos nossas opiniões 😉

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“Christmas Farm II”, obra de Jim Gerkin

Quem nunca sentiu dúvidas, no período que antecede o Natal, quanto aos presentes a serem dados nessa data? Esse foi o pensamento que tive ao ler o título do conto escrito por Richmal Crompton – um tanto desconhecido aliás, pois somente pude conhecê-lo através de diversas pesquisas sobre histórias ambientadas nessa época do ano.

Publicado pela primeira vez em 1922, a narrativa nos apresenta inicialmente à personagem Mary Clay, uma mulher que já tivera sonhos alegres acerca da vida em matrimônio, mas há muito os havia abandonado, desiludida a respeito do próprio casamento. Além de encarregar-se dos afazeres domésticos ao longo do dia, ela ainda tem de lidar com o marido, um homem desagradável e ranzinza que se dirige à esposa como a um subordinado.

“John, por outro lado, gostava de escutar o som da própria voz. Gostava de gritar com ela, chamá-la quando estava em outro cômodo da casa. […] Ele gritava “Mary”, convocando-a para algum serviço, qualquer que fosse e onde quer que fosse.”

Nesse contexto, é possível notar como o cenário retratado continua atual: embora avanços tenham ocorrido, ainda há muitos casamentos nos quais a mulher tem de se mostrar inteiramente submissa ao cônjuge. E, após tanto tempo obedecendo às ordens de outrem, ela acaba por esquecer-se que os próprios desejos são também importantes.

De modo semelhante,  Mary Clay já havia perdido as esperanças de ter a vida um dia tão almejada. Isso até receber da tia, durante o Natal, um presente um tanto inusitado. Após a revelação do segredo passado de geração a geração, a protagonista tem de lidar com uma escolha que poderá mudar sua vida: de uma lado, há a perspectiva da rotina tão aborrecida que leva; e, de outro, a chance de ignorar as falas do Sr. Clay quando lhe for conveniente.

E, apesar da hesitação inicial, a mulher segue o caminho de suas antepassadas, que encontraram para si uma maneira particular de rebeldia; uma pequena revolução.

“[…] você será capaz de escutar somente o que quiser. – Ela chegou mais perto e sussurrou – E você estará livre disso tudo! Assim, nós não temos que levar as coisas para eles, nem responder a suas perguntas estúpidas.”

É simplesmente fantástico como o desfecho, embora simples, suscita questionamentos tão pertinentes. Afinal, se nessa história, ambientada na década de 1920, as mulheres mostram-se capazes de quebrar a subserviência aos homens, ainda que de modo tímido, por que as esposas do século XXI teriam de se submeter a situações humilhantes no casamento?

 

 

Projeto Leia + Contos | O lado obscuro de Roald Dahl

Este post faz parte do Projeto Leia + Contos. Aqui, farei uma breve discussão sobre o conto “A Senhoria”, de Roald Dahl, que pode ser lido em sua versão original clicando aqui, ou numa tradução para o português clicando aqui. Depois, não se esqueça de voltar para trocarmos nossas opiniões 😉

Ilustração feita por Wesley Ryan Clapp

Embora Roald Dahl seja atualmente mais conhecido como autor de livros infantis, o escritor britânico foi também responsável pela criação de diversos contos, dentre os quais destaca-se “A Senhoria”. Publicado pela primeira vez em 1959, o texto faria com que, no ano seguinte, Dahl fosse agraciado no Edgar Awards, importante premiação dedicada ao gênero mistério.

A história, ambientada em Bath, acompanha o personagem Billy Weaver enquanto procura um local para passar a noite. Após caminhar pelas ruas da cidade, acaba por hospedar-se numa pensão, cuja senhoria é uma idosa simpática (até demais).

“Mas estou sempre preparada. Dia e noite, está tudo pronto para receber um jovem cavalheiro aceitável. Não pode imaginar quão grande é o meu prazer quando, volta e meia, abro a porta e deparo com alguém que é exatamente certo.”

Desde o início, somos tomados pela sensação de que algo terrível ocorrerá em seguida. Sem dúvidas, é incrível como o autor consegue inserir tensão no enredo e, principalmente, por fazê-lo a partir do não dito, dos subentendidos. Em outras palavras, o conto não se preocupa em dar respostas prontas ao leitor – cabendo a este, assim, imaginar os eventos aterrorizantes já ocorridos ou ainda por ocorrer naquela casa.

Como exemplo, pode-se citar o momento em que, ao deparar-se com os nomes dos hóspedes anteriores da pensão, o protagonista recorda tê-los escutado em algum lugar. Teria ele conhecido esses homens ao longo da vida? Ou simplesmente havia lido seus sobrenomes numa manchete de jornal, talvez a anunciar uma tragédia numa pensão de Bath? A essas e outras perguntas, cabe a nós tentar responder.

Ao mesmo tempo, há outro elemento que incorpora terror à trama: o modo como Billy Weaver sente-se atraído à pensão. Segundo o próprio personagem nos narra, ao defrontar-se com o anúncio de “cama e café da manhã”, ele é quase impulsionado a entrar no local. Em outras palavras, a construção parece dotada de força própria.

“Já estava começando a se virar quando seus olhos foram atraídos, de um modo bem esquisito, pelo cartaz na janela. CAMA E CAFÉ DA MANHÃ, dizia o cartaz. […] Cada palavra parecia um olho negro e imenso a fitá-lo através do vidro, a prendê-lo, atrai-lo, forçando-o a permanecer onde estava, a não se afastar daquela casa.”

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Imagens da adaptação do conto por Alfred Hitchcock (1961)

Assim, Roald Dahl não subestima o leitor, não se demora em explicações, e é isso que nos faz mais apreensivos no decorrer da história. Enfim, caso não o conhecesse pelos famosos “Matilda” e “A Fantástica Fábrica de Chocolate”, seria difícil supor que o conto fora escritor por um autor de livros infantis. De qualquer maneira, algo não se pode negar: depois de ler essa história, nunca mais veremos uma pensão da mesma maneira…

 

Projeto Leia + Contos | “Na Colônia Penal” e (in)justiça

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Este post faz parte do Projeto Leia + Contos. Aqui, farei uma breve discussão sobre o conto “Na Colônia Penal”, de Franz Kafka e, por isso, é importante lê-lo antes de continuar o texto. Depois, não se esqueça de voltar para trocarmos nossas opiniões 😉

Durante uma leitura pública de “Na Colônia Penal”, realizada pelo próprio autor na Galeria Goltz, em Munique,  duas senhoras desmaiaram ante o horror da narrativa. Tendo isso em mente, já é possível notar o quão perturbador é o conto.

Escrita em 1914, a história trata da visita do explorador a uma colônia penal, onde a justiça é, no mínimo, duvidosa. Nesse lugar, os condenados não têm direito de defender-se ou sequer de tomar conhecimento das acusações. Contudo, o aspecto mais insano disso tudo é, sem dúvida, a máquina peculiar utilizada nas penas.

Tomando como base o princípio de “sentir na própria pele”, o aparelho tortura o indivíduo ao longo de doze horas – durante as quais ele tem marcada nas costas, a partir de um sistema complexo de agulhas, uma sentença referente a seu respectivo crime. Somente então, o prisioneiro será levado à morte.

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Obra do artista Bruno Caruso (Itália, 1927). 

“Cada agulha comprida tem ao seu lado uma curta. A comprida é a que escreve, a curta esguicha água para lavar o sangue e manter a escrita sempre clara.”

Por si só, essa máquina já seria capaz de chocar qualquer leitor; porém, a descrição crua, impessoal de Kafka torna a experiência ainda mais perturbadora.  Soma-se a isso a crença cega do oficial na utilidade do aparelho, a tal ponto que ele mesmo, em certo momento, submete-se ao processo. Entretanto, ocorre uma falha nos mecanismos, e o homem, que tinha uma incrível admiração pelas longas horas de tortura, é morto em poucos instantes.

“Nesse ínterim as partes feridas pela escrita entram em contato com o algodão, o qual (…) estanca instantaneamente o sangramento e prepara o corpo para novo aprofundamento da escrita.”

 “Franz Kafka: The Peculiar Apparatus from the Story ‘In the Penal Colony'”. Obra do artista Martin Senn.

Assim, essa história aborda julgamento e condenação, temas comuns na obra de Kafka – que, aliás, era formado em Direito. Além disso, há uma clara crítica a essa visão turvada sobre a lei e, também, ao apego aos costumes passados.

Com um final enigmático, “Na Colônia Penal” constitui até hoje um dos contos mais assustadores já escritos, sobretudo porque será sempre atual. Afinal de contas, a crueldade nele retratada não se distancia daquela que encontramos nos livros de história e nos noticiários. E, por fim, bem sabemos que o conceito de justiça é ainda controverso, e que a tal estátua – com a balança nas mãos e os olhos vendados – não corresponde exatamente à realidade.

Projeto Leia + Contos | “Uma Galinha” e a situação da mulher

Estive bastante empolgada com este projeto desde que o apresentei a vocês – afinal, sendo uma amante de contos, tenho diversas indicações para dar. Como não poderia ser diferente, decidi compartilhar hoje um dos meus textos preferidos do gênero: “Uma Galinha”, escrito pela maravilhosa Clarice Lispector!

Presente na coletânea “Laços de Família”, a história acompanha a vida de uma certa galinha, bem como os diversos “percalços” que ela encontrará. Caso você não tenha lido esse conto, recomendo que o faça antes de continuar, pois aqui darei minhas impressões sobre o enredo. Lembrando que é bem fácil de encontrá-lo na internet, além de curtinho e gostoso de ler. Depois, não se esqueça de voltar aqui para trocarmos nossas opiniões 😉

Minhas impressões:

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Quem já leu algo da autora, sabe que seus textos são repletos de significado e, como toda obra da literatura, permitem interpretações diversas. Cada leitor, de acordo com as próprias vivências, extrai dali uma “lição”.

Desde as primeiras palavras do conto, fiquei comovida com a história da galinha. As descrições, tão simples e singelas, causaram-me identificação, porque vi, naquela criatura solitária, uma representação da mulher.

“Estúpida, tímida e livre. Não vitoriosa como seria um galo em fuga. Que é que havia nas suas vísceras que fazia dela um ser? A galinha é um ser.”

Ignorada pelos outros, oprimida, sem direitos. Aquela é a situação da galinha em fuga quando, por fim, põe um ovo. E, após esse único acontecimento, tudo muda. A menina, então, convence os pais a manter viva a ave.

Seria isso uma indicação de que, para a sociedade, o papel da mulher resume-se à reprodução e à manutenção da espécie?  Daí entram as vivências de cada leitor, pois o que senti ao ler essas palavras são fruto das minhas experiências.

Ao final, vemos que o destino da galinha muda abruptamente.

“Na fuga, no descanso, quando deu à luz ou bicando – era uma cabeça de galinha, a mesma que fora desenhada no começo dos séculos.

Até que um dia mataram-na, comeram-na e passaram-se anos.”

De modo semelhante, a situação da mulher não é ideal. Essa questão feminina, embora esteja aparentemente solucionada (assim como a galinha parecia ter mudado de vida), não deve de maneira alguma ser encarada como “assunto encerrado”. É verdade que houve muitas avanços ao longo da história, fruto da luta por parte das mulheres, porém vemos muitas situações nos dias de hoje que nos fazem  questionar: será que a humanidade está retrocedendo com o tempo? De qualquer forma, ainda há um longo caminho a ser percorrido até alcançarmos a igualdade de gêneros, e até que a sociedade tome consciência da importância desse tema.

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Então, gostaram do post? E o que acharam do conto? Adorarei saber!

Beijos e até a próxima!


Projeto Leia + Contos | Introdução

Todos sabemos que o hábito da leitura não é tão difundido na rotina dos brasileiros. Ainda assim, as estatísticas assustam: segundo uma pesquisa realizada pela NOP World Culture Score Index, dedicamos, em média, cinco horas de nossa semana a essa atividade – um dado alarmante frente às mais de dez horas da população indiana.

Contudo, não é difícil encontrar uma das razões do problema. Na análise “Retratos da Leitura no Brasil” (2015), 32% dos “não-leitores” alegaram falta de tempo para a leitura. Como, então, seria possível conciliar essa prática tão importante com a rotina atarefada das pessoas?

Há uma alternativa simples: os contos! Por serem menos extensos, com poucas tramas e menor quantidade de personagens (mas nem por isso deixam de ser histórias maravilhosas!), esses textos são ideais para quem dispõe de pouco tempo para a leitura.

Assim, inspirei-me em alguns canais e blogs literários e decidi trazer o projeto “Leia + Contos” aqui para o blog, num modelo um pouco diferente dos demais que encontrei. Funcionará da seguinte maneira: periodicamente, irei apresentar uma indicação de conto, com uma breve sinopse e minhas impressões sobre o enredo.

Ainda não determinei a regularidade dos posts, pois terei de conciliar o blog com meus estudos, mas pouco a pouco trarei novas informações a respeito do projeto. Criei também uma página para ele (link aqui), porque assim poderei comunicar os contos a serem lidos para os posts seguintes, de modo que possamos trocar ideias sobre eles nos dias do projeto.

Então, gostaram da ideia?

Quais contos vocês gostariam de ver por aqui? Já tenho alguns em mente, mas aceito sugestões!

Abraços e até a próxima!