Leituras do mês | Janeiro 2018

Janeiro foi mês de férias e, consequentemente, acabei devorando um livro atrás do outro. Por isso, de antemão, peço desculpas pelo post longo, mas fico feliz por perceber que todas essas leituras foram excelentes!


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“Persuasão”, de Jane Austen

Há algum tempo não lia nada da Jane Austen e, como tinha um exemplar de “Persuasão” em Inglês, decidi reler a obra no idioma original. Pode-se dizer que a narrativa é permeada por um tom melancólico, não usual na escrita da autora. Após retornar à história, percebi também como o enredo é pesado, carregado por sentimentos como rancor, culpa e arrependimento. Ao mesmo tempo, somos levados a encarar as mazelas da pressão da sociedade sobre os indivíduos, um tema que é ainda extremamente atual. Então, para aqueles que acreditam que a bibliografia de Jane Austen resume-se a romances “água com açúcar”, vale a pena conferir essa obra, atentando para o desfecho não tão feliz escolhido pela autora.

“Úrsula”, de Maria Firmina dos Reis

Em seguida, optei por conhecer “Úrsula”, considerado o primeiro romance abolicionista do Brasil. Essa leitura acabou por ser enriquecedora – não tanto pela história, pois, superficialmente, seu enredo principal é recheado de paixões à primeira vista e perseguições; mas sim pelo fato de que, apesar da inegável importância que a obra tem para a literatura brasileira, é ainda pouco conhecida pela população em geral. Por isso, decidi listar alguns motivos para ler a história, os quais podem ser encontrados aqui. Será que consigo convencer alguém a dar uma chance à obra? 🙂

“Quincas Borba”, de Machado de Assis

Depois, dei continuidade à minha incursão pela literatura machadiana, com o romance “Quincas Borba”. Apesar de ser o menos conhecido da trilogia realista, posso afirmar que é um livro simplesmente incrível! A história tem início quando, após a morte de Quincas Borba, Romão ascende socialmente a partir da herança do amigo. Contudo, se por um lado o protagonista acompanhara o falecido até os últimos dias de vida deste, por outro, não havia sido capaz de compreender a filosofia desenvolvida por Quincas Borba – o chamado “Humanitismo”. Assim, será somente no decorrer do enredo que Romão irá vivenciar, e enfim compreender, o sentido da frase proferida pelo colega: “Ao vencedor, as batatas!”. Como é característico da escrita do autor, as críticas à sociedade mostram-se latentes nessa obra. Ademais, o próprio título leva o leitor a uma reflexão: por que “Quincas Borba”, se o protagonista é, na verdade, Romão? Para descobrir a resposta, basta ler o livro! 😉

“Vulgo Grace”, de Margaret Atwood

Sim, finalmente conheci a escrita de Margaret Atwood! Desde o início, tinha altas expectativas em relação às obras da autora – tanto em virtude dos comentários positivos acerca desta, quanto por saber que a canadense evidenciava o feminismo em suas histórias. Felizmente, não me desapontei nem um pouco com “Vulgo Grace”. Em primeiro lugar, o livro apresenta uma narrativa instigante. Mesmo sabendo que o propósito dele não é estabelecer a culpa ou inocência da protagonista, é impossível não ansiar por descobrir um pouco mais dos confusos acontecimentos que antecederam os assassinatos de Nancy Montgomery e do Sr. Kinnear, ainda que as palavras de Grace não sejam necessariamente confiáveis.

Daí, chegamos ao segundo ponto e, possivelmente, a grande faceta da autora: nós, leitores, somos levados a julgar a personagem, tentar compreender os fatos, e admitir ou não a culpa dela. Será que isso não representaria o modo como nossa sociedade está sempre disposta a julgar o outro, ainda que não possua total conhecimento do contexto em que este se insere? Ao mesmo tempo, Atwood nos mostra como as mulheres, ainda hoje, costumam ser mais duramente julgadas que os homens. Em resumo, “Vulgo Grace” é uma história que não só é capaz de entreter, como também apresenta de modo sutil diversos temas extremamente atuais. Por isso tudo, não vejo a hora de conhecer o restante da bibliografia da autora!

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“O Fantasma da Ópera”, de Gaston Leraux

Embora essa história seja bastante difundida em diversas mídias, especialmente em virtude de sua adaptação para o teatro, o único conhecimento que detinha acerca dela era o título. Felizmente, pude entrar em contato com o enredo a partir do filme de 2004 – que, mesmo não sendo excepcional, fez-me sentir apaixonada pela ambientação, pela narrativa e, é claro, pelas músicas. Como boa leitora que sou, decidi recorrer à obra original, na qual pude encontrar o mesmo clima de tragédia, grandiosidade e, sobretudo, de amor doentio, assim como em “O Morro dos Ventos Uivantes”. Meu próximo passo há de ser, acredito, assistir ao musical, mas acho que ainda terei de esperar para isso ocorrer. De qualquer modo, fico feliz em ver ocasionalmente alguns vídeos de performances famosas, como este aqui. 🙂

“Sempre Vivemos no Castelo”, de Shirley Jackson

Assim como muitos leitores, até recentemente eu não conhecia Shirley Jackson, cuja bibliografia, apesar da autora haver sido uma das mais renomadas do gênero de suspense e terror, costumava ser escassa aqui no Brasil. Assim, fiquei muito feliz de poder entrar em contato com uma de suas obras mais aclamadas, protagonizada por duas irmãs consideradas grandes anti-heroínas da literatura. Desde as primeiras páginas, é possível notar que todo o universo da história – as personagens, a ambientação e o humor único que permeia a narrativa – é um tanto peculiar. Além disso, é quase impossível não sentir um certo fascínio por Constance e Mary Katherine, que, assim como o restante do livro, têm personalidades únicas. Dito isso, não há dúvidas de que recomendo a obra, porém é importante que o leitor esteja preparado para se deparar com uma espécie de estranheza, como já mencionado.

“A Amiga Genial”, de Elena Ferrante

Assim como Margaret Atwood, Elena Ferrante é um nome que tem sido muito comentado no mundo da literatura, também com ênfase na representatividade feminina presente em suas histórias. Como adoro os chamados romances de formação, decidi enveredar pela Tetralogia Napolitana, cujo título inicial nos apresenta a infância e a adolescência de Lila e Lenu – que, apesar de crescerem cercadas pela violência e pela submissão feminina, buscam traçar o próprio caminho. No decorrer da leitura, fiquei abismada pela maneira com que a autora, ao tratar de temas já tão abordados e de modo relativamente simples, conseguiu cativar-me por completo. A história contada por Ferrante é, sobretudo, honesta, e as personagens são tão reais que poderiam muito bem ser alguém que conhecemos. Torcemos por elas, lamentamos seus erros, sentimos raiva com algumas de seus atitudes – até percebermos que são humanas e, afinal, têm falhas como todo mundo. Por fim, são figuras que nos geram empatia, sendo quase impossível não se identificar, ao menos em parte, com alguma das situações presentes na narrativa.

“Dois Irmãos”, de Milton Hatoum

Há algum tempo, tenho percebido que pouco conheço do cenário literário atual em nosso país. Não tenho dúvidas de que a leitura dos clássicos é uma experiência enriquecedora, porém sinto que deveria prestigiar mais nossos autores ainda vivos. Tendo isso em mente, decidi começar pela obra “Dois Irmãos”, de Milton Hatoum – um escritor amazonense muito prestigiado e vencedor de diversos prêmios. Inicialmente, devo dizer que a história não me cativou por completo; achei a trama interessante, mas não sentia empatia pelos personagens. Contudo, ao longo da narrativa, meus sentimentos em relação ao livro foram mudando – de modo que, ao ler o último parágrafo, fiquei embasbacada com o talento do autor. Mal posso esperar para conhecer os demais livros dele, especialmente “Cinzas do Norte” e “Relato de um Certo Oriente”!


Escrevi esse texto no início de 2018; porém, logo em seguida, optei por abandonar o blog para me dedicar mais aos estudos. De todo modo, decidi postá-lo para registrar minhas experiências literárias, tão especiais ao longo de minha formação.

Então, já leram alguma das obras mencionadas? Se sim, contem nos comentários! 🙂

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Projeto Leia + Contos | “Pausa”, de Moacyr Scliar

Este post faz parte do Projeto Leia + Contos. Aqui, farei uma breve discussão sobre o conto “Pausa”, de Moacyr Scliar, o qual pode ser lido clicando aqui. Depois, não se esqueça de voltar para trocarmos nossas opiniões! 😉

Alienated II, ilustração de Natalie Foss

No século XXI, nossa vida é cada vez mais ditada pelo tempo, pela rotina. Nossos dias são cronometrados, de modo que consigamos realizar o maior número de atividades num curto espaço de tempo. Diante disso, quem nunca desejou refugiar-se, ao menos por alguns segundos, dessa realidade desesperada?

É com esse intuito que Samuel, o protagonista do conto “Pausa”, hospeda-se em pleno domingo num hotel. Adotando um nome diferente, também na tentativa de distanciar-se de sua vida cotidiana, o personagem recolhe-se no quarto e, após uma rápida refeição, dorme. Porém, quando o despertador toca, ele é levado a retornar para o “mundo real”.

Nesse texto, é interessante notar que, embora Samuel busque obter uma pausa das atribulações da modernidade, é certo que ele não consegue de todo alcançar esse objetivo: além de permanecer angustiado durante o sono, em razão do sonho tido, ainda tem de lidar com o grande inimigo do homem contemporâneo – o relógio, o fio que o mantém preso à realidade.

É claro que o autor aborda o tema de maneira um tanto fantasiosa; afinal, reservar um dia da semana para nos hospedarmos num hotel não é um meio tão prático de esquecermos o dia a dia. Contudo, sempre podemos contar com a leitura para essa finalidade – que modo melhor de nos distanciarmos, mesmo por um breve instante, de nossos problemas?

Eis a fórmula para uma boa pausa da agitação diária: sente-se numa poltrona confortável, tenha um exemplar em mãos (ou leitor digital, mas sou daquelas leitoras antiquadas que ainda preferem o manuseio das obras e o cheirinho de livro novo…) e simplesmente mergulhe nas páginas. Não há erro!

5 motivos para conhecer “Úrsula”, de Maria Firmina dos Reis

Publicado em 1859, o romance “Úrsula” acompanha o amor dos jovens Úrsula e Tancredo, que têm de enfrentar uma série de obstáculos para manterem-se unidos. À primeira vista, o enredo pode parecer demasiadamente “adocicado”, com muito romance, dramas, perseguições… Em parte, isso é até verdade, mas alguns aspectos da obra a tornam um verdadeiro marco da literatura brasileira.


1. Primeiro romance abolicionista do Brasil:

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Navio negreiro representado em pintura do século XIX, do artista Rugendas.

Dez anos antes da criação de “O Navio Negreiro”(1869), poema escrito por Castro Alves, houve a obra “Úrsula”. Embora não seja protagonizada por escravos, esses assumem importantes papéis na história, em figuras como Túlio, Susana e Antero. Mais do que isso, essas personagens ganham voz para relembrar a verdadeira liberdade que tiveram, vivenciada na África, sua terra natal. Além disso, Maria Firmina dos Reis narra as condições desumanas a que eram submetidos os escravos nos navios negreiros.

“(…) davam-nos a água imunda, podre e dada com mesquinhez, a comida má e ainda mais porca; vimos morrer ao nosso lado muitos companheiros à falta de ar, de alimento e de água.”

2. Retrato da situação da mulher:

Além de denunciar a escravidão no Brasil, a autora também faz um retrato de relacionamentos abusivos ao longo da narrativa. Nesse sentido, Luíza B. e a mãe de Tancredo são duas mulheres que tiveram de viver submissas a seus respectivos maridos, dos quais foram vítimas de abuso durante toda a vida.

3. Uma mulher a frente de seu tempo:

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Fonte: Jornal Nexo

Nascida no Maranhão em 1822, Maria Firmina dos Reis não só foi a primeira mulher a ser aprovada em concurso público em seu estado, como também é considerada a primeira romancista brasileira. Ademais, a escritora foi responsável pela fundação da primeira escola maranhense destinada a meninos e meninas, a qual acabou por ser fechada três anos depois, em virtude do escândalo que causara na época. Por tudo isso, não há dúvidas de que Maria Firmina foi uma mulher a frente de seu tempo.

4. Obra pouco reconhecida:

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Ainda que a crítica tenha tido, de modo geral, opiniões positivas quanto à obra na época em que esta foi publicada, é fato que a autora ficou relegada ao desconhecimento durante um longo período. Assim, foi somente em 1975 que a literatura de Maria Firmina dos Reis foi resgatada, quando o pesquisador Horácio de Almeida encontrou uma edição de “Úrsula” num sebo. No entanto, a escritora ainda hoje não recebe o reconhecimento devido – afinal, em quantas escolas pode-se dizer que o trabalho dela é exposto aos alunos, ao lado de figuras como José de Alencar e Machado de Assis?

5. Livro em domínio público:

Por fim, há ainda outro motivo para conhecer o romance mais famoso de Maria Firmina dos Reis: está em domínio público! Então, por que você não dá uma chance a essa escritora? Basta clicar aqui para ter acesso ao livro. Boa leitura! 🙂


Referências:

DA SILVA, Régia Agostinho. A mente, essa ninguém pode escravizar: Maria Firmina dos Reis e a escrita feita por mulheres no Maranhão. Leitura: Teoria & Prática, v. 29, n. 56, p. 11-19, 2011.

DE OLIVEIRA, Adriana Barbosa. Gênero e etnicidade no romance Úrsula, de Maria Firmina dos Reis. Anais do SETA-ISSN 1981-9153, v. 1, 2007.

Leituras do mês | Dezembro 2017

Apesar de dezembro ser o mês do Natal, minhas leituras nesse período não foram nada natalinas (com exceção da narrativa selecionada para o Projeto Leia + Contos, que adorei!). Acho que isso se deve ao fato de que não sou, como a maioria das pessoas, tomada pelo espírito da festividade. Então, vejamos o que foi lido 🙂


“A Guerra do Tronos” e “A Fúria dos Reis”, de George R. R. Martin

Sim, dei início à tão famosa saga que originou a série de TV Game of Thrones. Devo admitir que somente me interessei em lê-la por estar disponível na biblioteca de minha escola – caso contrário, não me arriscaria a adquirir os volumes. Bem, e qual foi meu veredito após os dois primeiro livros? A princípio, não acreditei que fosse me envolver tanto com a história, mas (felizmente) eu estava enganada. Apesar de alguns trechos mais cansativos, o que já era de se esperar num calhamaço de mais de 500 páginas, George R. R. Martin conseguiu me entreter e me fazer adentrar nesse universo. Enfim, enquanto lia, pude realmente me afastar por alguns momentos da vida real!

PS.: Comentei tanto sobre essa história que fui presenteada com uma camiseta da série ❤

“Long Day’s Journey into Night”, de Eugene O’Neill

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Essa obra foi simplesmente uma surpresa maravilhosa! A peça, escrita pelo vencedor do Nobel de Literatura de 1936, acompanha a vida da família Tyrone no decorrer de um dia. Inicialmente, nos deparamos com uma dinâmica familiar até um tanto corriqueira. Porém, ao longo do texto, somos levados numa verdadeira jornada a partir de um aumento gradativo de tensão, até o ápice da história. Trata-se de uma verdadeira obra-prima no retrato dos recantos mais obscuros da mente humana.

“As Três irmãs”, de Anton Tchekhov

Li ainda outra incrível peça no mês de dezembro: “As Três Irmãs”, do escritor russo Anton Tchekov. Assim como “Long Day’s Journey into Night”, a história é composta essencialmente por diálogos, a partir dos quais somos capazes de entrever alguns dos medos e inquietações dos personagens, em especial das irmãs Olga, Macha e Irina. O mérito dessa história encontra-se principalmente em sua capacidade de gerar-nos empatia, identificação. Além disso, em diversas passagens, o autor destaca a importância do trabalho, o que me recordou bastante a mensagem de “Cândido, ou O Otimismo”, de Voltaire, cuja mais famosa frase – “[…] devemos cultivar nosso jardim” – ilustra bem esse preceito. E quanto ao desfecho, posso apenas dizer que é emocionante!

“Terra Sonâmbula”, de Mia Couto

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Publicado em 1992, “Terra Sonâmbula” acompanha dois núcleos de personagens: o velho Tuahir e o “miúdo” Muidinga, que fogem da destruição da Guerra Civil Moçambicana; e o jovem Kindzu, cuja história é encontrada pela dupla numa série de cadernos abandonados. Devo dizer que a escrita do autor é extremamente poética e sensível. Sem dúvidas, alguns dos aspectos que mais se destacaram na obra foram o realismo mágico e a presença de diversos neologismos (pequeninar, desandarilho, bambolento…). Inicialmente, confesso que não me envolvi tanto com a história: essa foi me conquistando aos pouquinhos, até o desfecho, com o qual é impossível não se emocionar.

Esse foi meu primeiro contato com Mia Couto e, como várias de sua obras estão disponíveis na biblioteca de minha escola, é muito provável que o escritor apareça ainda muitas vezes por aqui… 🙂

“Nariz de Vidro”, de Mário Quintana

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Encontrei esse livro também na biblioteca da escola e, como já havia lido e amado algumas produções do Mário Quintana, decidi dar uma chance. Infelizmente, os poemas presentes em “Nariz de Vidro” não me agradaram tanto como outros textos do autor. De qualquer modo, foi uma leitura válida.

“Assassinato no Expresso Oriente”, de Agatha Christie

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Por último, mas de forma alguma menos importante, realizai a releitura de um dos meus livros favoritos da vida: “Assassinato no Expresso Oriente”. Tive o meu primeiro contato com a autora a partir dessa obra, o que torna esta ainda mais especial para mim. Acredito que, com o lançamento do novo filme, muitos já conhecem o enredo: o famoso detetive Hercule Poirot tem de descobrir, em meio aos passageiros de um trem, o responsável por um assassinato ocorrido durante a viagem. Após essa segunda leitura, minha opinião em relação à história não mudou: acho-a simplesmente incrível, em especial a forma como o desfecho ocorre. ❤

 

Minhas leituras favoritas de 2017

2017 está quase acabando e, por isso, decidi elencar algumas das leituras que mais me marcaram ao longo do ano. Buscar essas histórias em minha memória foi uma experiência incrível, pois pude recordar o amor que tive por todas elas! Enfim, vamos às obras, que de antemão já recomendo a todos!


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“Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis: 2017 foi um ano em que me aventurei na obra de Machado de Assis, e “Memórias Póstumas de Brás Cubas” foi, sem dúvidas, uma das leituras mais inesquecíveis que já fiz na vida. Costumo dizer que as melhores histórias são aquelas que possuem começos ou finais impactantes. E adivinha? Esse livro tem os dois!

“Cem Anos de Solidão”, de Gabriel García Márquez: Gabo foi uma das minhas maiores descobertas do ano e, mesmo tendo lido apenas duas de suas obras, ele já entrou para a minha lista de escritores favoritos da vida! O que mais me cativou nos livros dele não foram somente o enredo e as personagens – que são inesquecíveis, sem dúvida! – mas principalmente a magia da escrita do autor. É simplesmente impossível não se sentir fascinado com a habilidade que ele possui com as palavras! E, claro, isso fica muito evidente em “Cem Anos de Solidão” – uma obra que não esquecerei tão cedo…

“Hibisco Roxo”, de Chimamanda Ngozi Adichie: Outra escritora que me conquistou em 2017 foi Chimamanda! Devo admitir que não costumo ler obras contemporâneas, mas sempre tive curiosidade em relação à autora. Por fim, não é que os livros dela superaram – e muito – as minhas expectativas? Acredito que suas histórias tornam-se especialmente marcantes por tratarem de temas tão relevantes na atualidade. “Hibisco Roxo”, por exemplo, explora a questão da intolerância religiosa e, por isso, acredito que é uma leitura obrigatória no contexto em que vivemos.

“Anna Kariênina”, de Liev Tolstói: Apesar de ser um calhamaço, esse história passou voando! Mesmo tendo sido escrita na Rússia do século XIX, “Anna Kariênina” é ainda extremamente atual, por retratar uma sociedade hipócrita, machista – e o modo como Tolstói o faz com maestria torna essa experiência um verdadeiro “soco no estômago”!

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“A Metamorfose”, de Franz Kafka: Essa foi outra leitura impactante que fiz em 2017. A obra é ainda hoje uma das mais icônicas da literatura, e isso não é à toa: o modo como a transformação de Gregor é narrada de forma crua, impessoal, leva-nos a fazer reflexões sobre vários assuntos: as relações baseadas em interesse, a alienação… Acredito que uma das fases mais interessantes de minha experiência com o livro foi o “pós-leitura”, isto é, conhecer as diversas interpretações e análises que já foram feitas acerca do tema. Afora isso, “A Metamorfose” é de fato uma história instigante, daquelas que nos prendem ao longo de toda a narrativa!

“Morte no Nilo”, de Agatha Christie: Como já comentei diversas vezes por aqui, Agatha Christie é uma das minhas escritoras favoritas e, por isso, não podia faltar uma obra da autora nesta lista. Dentre as leituras da Agatha que realizei em 2017, “Morte no Nilo” foi, sem dúvidas, aquela que mais me envolveu. A razão disso não foi exatamente a revelação do “culpado” do crime – afinal, esse é um elemento presente em muitas outras histórias da autora – mas sim o modo como a tensão foi desenvolvida. Houve cenas, inclusive, que fizeram sentir-me realmente apreensiva, o que não costuma ocorrer durante minhas leituras. Em resumo, “Morte no Nilo” está mais do que recomendado!

“Todos os Contos”, de Clarice Lispector: Após ler e adorar algumas das narrativas da autora, decidi me dedicar à leitura de seus contos completos. Nem preciso dizer que amei a experiência, em especial a forma como acontecimentos cotidianos levam os personagens a profundas reflexões! Além disso, foi interessante observar as histórias em seus dois aspectos: a parte superficial, ou seja, o próprio enredo; e as significações por trás dele. Certamente, irei reler essa obra no futuro.

“Capitães da Areia”, de Jorge Amado: Essa foi uma leitura obrigatória na escola, o que para mim foi um verdadeiro presente! Adorei como cada personagem ganhou vida ao longo das páginas, tendo as próprias personalidades e defeitos, sem falar que o final realmente me tocou: eu quase chorei após concluir a história!


E vocês? Quais foram suas melhores leituras de 2017?

Feliz Ano Novo e até a próxima!

 

O que “Boyhood” nos diz sobre o tempo?

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“Boyhood” conseguiu realizar um feito raro: em algumas cenas ao longo das quase 3 horas de filme, ele me fez chorar. Isso, porém, não foi resultado de grandes tragédias, mortes ou qualquer evento dessa natureza no enredo – mesmo porque essa não é a proposta da obra.

Na realidade, sua capacidade de sensibilização encontra-se na mensagem exposta de maneira sutil: o tempo passa depressa. E, apesar desse pensamento estar presente em inúmeras produções, “Boyhood” trouxe algo de inovador: a filmagem realizada, no decorrer de 12 anos, com os mesmo atores. Desse modo, as mudanças físicas dos personagens nos são apresentadas de modo pouco perceptível, até por fim nos darmos conta de que o garotinho do começo do filme é o mesmo rapaz encontrado no desfecho.

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Talvez o desenrolar da história torne-se um tanto monótono para alguns: afinal, como já foi dito, as três horas da produção não compreendem enormes reviravoltas. Contudo, para mim, esse foi um dos motivos pelos quais a experiência de conhecê-la veio a ser ainda mais especial. Isso porque, se por um lado os eventos parecem ocorrer lentamente, por outro, ao final do filme, somos capazes de perceber o tanto que se passou nesse período.

É uma ideia quase ilógica e, ao mesmo, muito presente em nossa vida. Quem nunca teve a impressão de que o tempo está transcorrendo bem devagar, a “passos de tartaruga”? E, no entanto, quando relembramos o passado, percebemos o quanto tudo passou depressa…

Em resumo, eu simplesmente amei o filme e o indico a qualquer pessoa! Por fim, gostaria de concluir o texto trazendo um poema de Mário Quintana – que, mesmo breve, causa-nos impacto e tem estreita relação com o tema.

 

Projeto Leia + Contos | Um presente de Natal inusitado

Este post faz parte do Projeto Leia + Contos. Aqui, farei uma breve discussão sobre o conto “O Presente de Natal”, de Richmal Crompton, que pode ser lido em sua versão original clicando aqui, ou numa tradução para o português clicando aqui. Depois, não se esqueça de voltar para trocarmos nossas opiniões 😉

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“Christmas Farm II”, obra de Jim Gerkin

Quem nunca sentiu dúvidas, no período que antecede o Natal, quanto aos presentes a serem dados nessa data? Esse foi o pensamento que tive ao ler o título do conto escrito por Richmal Crompton – um tanto desconhecido aliás, pois somente pude conhecê-lo através de diversas pesquisas sobre histórias ambientadas nessa época do ano.

Publicado pela primeira vez em 1922, a narrativa nos apresenta inicialmente à personagem Mary Clay, uma mulher que já tivera sonhos alegres acerca da vida em matrimônio, mas há muito os havia abandonado, desiludida a respeito do próprio casamento. Além de encarregar-se dos afazeres domésticos ao longo do dia, ela ainda tem de lidar com o marido, um homem desagradável e ranzinza que se dirige à esposa como a um subordinado.

“John, por outro lado, gostava de escutar o som da própria voz. Gostava de gritar com ela, chamá-la quando estava em outro cômodo da casa. […] Ele gritava “Mary”, convocando-a para algum serviço, qualquer que fosse e onde quer que fosse.”

Nesse contexto, é possível notar como o cenário retratado continua atual: embora avanços tenham ocorrido, ainda há muitos casamentos nos quais a mulher tem de se mostrar inteiramente submissa ao cônjuge. E, após tanto tempo obedecendo às ordens de outrem, ela acaba por esquecer-se que os próprios desejos são também importantes.

De modo semelhante,  Mary Clay já havia perdido as esperanças de ter a vida um dia tão almejada. Isso até receber da tia, durante o Natal, um presente um tanto inusitado. Após a revelação do segredo passado de geração a geração, a protagonista tem de lidar com uma escolha que poderá mudar sua vida: de uma lado, há a perspectiva da rotina tão aborrecida que leva; e, de outro, a chance de ignorar as falas do Sr. Clay quando lhe for conveniente.

E, apesar da hesitação inicial, a mulher segue o caminho de suas antepassadas, que encontraram para si uma maneira particular de rebeldia; uma pequena revolução.

“[…] você será capaz de escutar somente o que quiser. – Ela chegou mais perto e sussurrou – E você estará livre disso tudo! Assim, nós não temos que levar as coisas para eles, nem responder a suas perguntas estúpidas.”

É simplesmente fantástico como o desfecho, embora simples, suscita questionamentos tão pertinentes. Afinal, se nessa história, ambientada na década de 1920, as mulheres mostram-se capazes de quebrar a subserviência aos homens, ainda que de modo tímido, por que as esposas do século XXI teriam de se submeter a situações humilhantes no casamento?